Parque da Cidade chega aos 40 anos com sinais de abandono

Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

Brasília estava em seu 18º ano de fundação quando ganhou de presente uma imensa área verde no meio das asas do Plano Piloto. Maior espaço público de lazer da América do Sul, Parque da Cidade Sarah Kubitschek, que em 2018 vira quarentão, amarga nesse aniversário uma triste realidade: o mau estado dos equipamentos públicos e registros de atos de vandalismo que dia após dia destroem o precioso espaço. Somente nos últimos quatro anos, foram 500 casos de depredação.

Fundado em 11 de outubro de 1978, o Parque da Cidade, como é popularmente chamado, possui uma área de 420 hectares pela qual se distribuem atrativos para todas as idades, como 49 churrasqueiras, seis parques infantis, cinco pontos de encontros comunitários (PEC), uma praça, quadras de esporte e diversos quiosques para alimentação. Em média, mais de 14 mil pessoas passam por lá de segunda a sexta-feira, além de 37 mil nos fins de semana – número que pode subir para 80 mil em eventos.

Apesar da estrutura grandiosa, o retrato atual é de abandono. Na piscina de ondas, sucesso nos anos 80 e 90 do século passado, o espaço destinado ao lazer virou reduto de lixo e focos de mosquito da dengue. Os vestiários foram tomados por usuários de crack e pessoas em situação de rua, que utilizam o local como dormitório, motel e depredam as paredes. O mato alto também toma conta de tudo.

Outros pontos que também carecem de cuidados são a Praça das Fontes e o Castelinho, que ficam no estacionamento 9 e 11, respectivamente. A praça não funciona e, apesar do nome, nem de longe jorra água.

Já no Castelinho, pichações estão espalhadas nos muros e o chão vive coberto de folhas de árvores, quando não de lixo. São cenários que, conforme a reportagem pôde verificar, afastam o público originalmente interessado em lazer.

Frequentadores

Guilherme Rodrigues Lima, 34 anos, é servidor público, trabalha próximo ao parque e aproveita todos os horários livres, seja no horário de almoço, na parte da tarde ou à noite, para praticar exercícios físicos no local.
Questionado sobre o estado de conservação do parque, ele disse que poderia estar melhor. “Vejo que só fazem os reparos mínimos, mas tem um ponto positivo, que foi a construção da nova pista, separando os ciclistas de quem caminha ou corre. Isso melhorou bastante e trouxe mais espaço”, indica.

Ele também sente falta de segurança mais efetiva. “É preciso melhorar a iluminação à noite e tentar solucionar o problema das pessoas em situação de rua. Dentro do parque tem muitas, principalmente, nas áreas com menos movimento. O pessoal acampa, coloca tenda, pede dinheiro”, conta.

O analista administrativo Edmilson Souza, 52 anos, critica os equipamentos de uso público. “É nítido que alguns estão muito deteriorados”, aponta. “Vi alguns equipamentos novos de empresas particulares. Não sou contra, mas acho que, se é um patrocínio particular, por que gastar mais com algo novo e não fazer uma reforma do que já existe para melhorar? É custo-benefício.” Apesar das críticas, ele entende que a população deveria ser mais presente. “Olha o tamanho desse espaço público. É uma calmaria em meio à cidade. Sempre incentivo colegas a vir fazer uma caminhada, aproveitar mais.”

Castelinho: depredado e com pichações , deixou de ser recomendável. Foto: Matheus Albanez/Jornal de Brasilia

Comércio

Não dá para comparar a o movimento atual com o dos anos 1990, atenta o comerciante Luiz Pereira, 58 anos, há 21 trabalhando em um dos 11 pontos de alimentação do parque. “Quando a piscina de ondas funcionava, vivia lotada”, lembra. “Era bom. De uns tempos para cá, o movimento diminuiu, mas sei que o parque é um dos lugares mais movimentos de Brasília nos finais de semana.”

Para Luiz, faltam investimentos. “O parque precisa de mais cuidado por parte do governo, porque deixa a desejar. É claro que a população tem que fazer sua parte e saber usar. Infelizmente, não vemos isso em algumas pessoas.”

Ocupação

A ocupação do espaço público para diminuir casos de depredações é o legado que o administrador do parque, Alexandro Ribeiro, acredita que vai deixar. “O vandalismo é o nosso maior problema”, aponta. “Ao longo da gestão, conseguimos perceber que com a participação pública, com eventos, isso tende a diminuir. Nesses quatro anos, intensificamos a agenda cultural e atividades coletivas no parque. O que aconteceu foi um acúmulo de problemas. As gestões anteriores abandonaram o parque, e os atos de vandalismo estão associados ao abandono.”


Inventário de Estragos

120 torneiras de plástico das churrasqueiras
90 reparos de descarga de vasos sanitários
60 bicos de bebedouro
40 bancos e mesas de concreto
30 trocas de encanação por vazamento;
30 portas de banheiro e vestiário
20 registros de duchas
15 torneiras
15 globos de lâmpadas
10 registros de água
10 pias


Projetos estão na fase de captação de recursos

Alexandro Ribeiro conta que os banheiros são os espaços que mais sofrem ataques, frequentemente denunciados pelos frequentadores. Durante sua gestão, contabiliza, 198 equipamentos precisaram ser repostos ou restaurados, dentre eles 90 aparelhos de descarga sanitária, 30 portas de banheiro e vestiário, 20 duchas, 12 chuveiros, sete vasos e seis mictórios. Isso acontece mesmo com os 42 vigilantes que se revezam em três turnos – 14 cada.

O administrador diz contar com o apoio da população e tem a expectativa de que o número de frequentadores aumente. “Temos que tornar o parque cada vez mais turístico, democrático e importante para a cidade, porque, assim, teremos o apoio de todos os usuários”.

De acordo com o administrador, existem projetos para revitalizar o Castelinho, a piscina de ondas e a Praça das Fontes . “O projeto do Castelinho já está aprovado e orçado. Será na ordem de R$ 240 mil, e pretendemos recuperar todo o brinquedo e torná-lo mais acessível. Está em fase de captação de recursos”, explica.

A restauração do Castelinho e da Praça das Fontes aguarda orçamento. O projeto atual inclui a instalação dos jardins de Burle Marx, algo previsto no projeto inicial , mas nunca concretizado. “É um orçamento alto, mas não estamos deixando o espaço ocioso”, garante o administrador. “Há muitos eventos que se realizam no local.”

Para a piscina de ondas, o grande projeto será a sua reativação. Isso, porém, só será possível por meio de uma parceria público-privada (PPP) prevista para o parque.

Embora a expectativa fosse tirar do papel, até o fim deste ano, a parceria com a iniciativa privada, a burocracia atrapalha. Não há perspectiva de licitação, e a assinatura de contratos para que empresas cuidem do Parque da Cidade demanda cerca de dois anos de processo.

Em dezembro de 2016, o governo lançou o primeiro edital de chamamento público para demonstração de interesse. Apenas duas empresas se manifestaram. Em 8 de março do ano passado, o governo concedeu a autorização para que elas pudessem fazer estudos técnicos no local.

Azulejos de Athos Bulcão ainda resistem ao tempo, mas até quando?. Foto: Matheus Albanez/Jornal de Brasilia

No histórico, o risco de virar quadra residencial

Por pouco o Parque da Cidade não virou um complexo residencial pontuado por quadras comerciais, no padrão adotado em todo o Plano Piloto de Brasília.

No início dos anos 1970, a capital federal vivia um dos períodos de crescimento e incentivo da expansão imobiliária. Foi quando as empreiteiras começaram a pressionar o então governador do DF, Elmo Serejo Farias, a reservar um espaço livre, próximo à Asa Sul, para a construção de um conjunto habitacional. A área pretendida era de aproximadamente 4,2 milhões de metros quadrados.

Felizmente, não foi essa a orientação que Serejo seguiu. Em 1974, ele determinou a elaboração de um projeto para implantação de um parque recreativo no local. Quatro anos depois, a ideia saiu do papel com o nome de Parque Recreativo Rogério Pithon Farias – uma homenagem do governador a seu filho, morto, à época, em um trágico acidente de carro.

Em 1997, o governador do DF, Cristovam Buarque, sancionou uma lei mudando o nome para Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek, uma referência à esposa do presidente Juscelino Kubitschek, que, na contracorrente de influenciadores políticos de todos os pontos do País, inaugurou Brasília em 1960.

O Parque da Cidade foi um projeto desenvolvido por profissionais que são referência na história de Brasília. O projeto é de Oscar Niemeyer; a obra paisagística, de Burle Marx. A área urbanística foi desenvolvida por Lucio Costa, e uma coleção de azulejos de Athos Bulcão faz parte do patrimônio da obra.

Parceria

Tantos anos depois, no momento em que o parque atravessa sua maior crise, a ideia de estabelecer uma Parceria Público-Privada (PPP) pode sinalizar o início de uma solução – mas não evoluiu.

Segundo a assessoria da Casa Civil, as duas empresas inscritas no processo da PPP desistiram e chegaram à conclusão de que seria preciso readequar o Plano de Ocupação e Uso do Parque da Cidade.

Em função dessa desistência, o projeto, atualmente, estaria parado na Secretaria de Estado de Gestão do Território e Habitação (Segeth) – que, por meio de nota, confirmou a chegada do projeto de PPP no início deste mês . Assim, ainda não há como falar, concretamente, em mudanças.

“A Segeth vai fazer uma reavaliação”, acenou a assessoria do órgão. “O Conselho Gestor argumentou, com base em apontamentos, sobre a viabilidade econômica do projeto.” O brasiliense merece.

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Fonte: jornaldebrasilia / aquiaguasclaras / odemocrata / noticiasdebrasilia / capitaldoentorno
Author: Administrador JBr

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